segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ponto de vista

Todo mundo o conhecia, era o relógio marcar dez horas e lá vinha seu Zé descendo a rua com uma latinha de cerveja nas mãos, e outras duas na sacola. Bêbado, vagabundo, desocupado, desordeiro. Não faltavam adjetivos para o homem magro, de barba mal feita, olheiras visíveis e de andar totalmente pacato. Embora vivesse naquela rua há anos, ninguém o conhecia de fato, sua casa era um mistério, ninguém jamais havia passado do portão, seu nome era conhecido apenas pelo fato de vez por outra, uma correspondência ser entregue por engano no vizinho, que colocava os envelopes na caixinha de correio sem querer papo, enojado e amedrontado pelo aspecto sujo e largado do morador da casa ao lado.

Seu Zé havia chegado ali anos atrás, a mudança chegou e só se escutava alguns barulhos de marteladas como se algo fosse pregado, mas poucas pessoas o viam fora daquele sagrado horário das dez da manhã, da descida da rua e das latinhas de cerveja nas mãos e na sacola. Havia pessoas a dizer que era um ex-presidiário, outras comentavam ser um aposentado, talvez por invalidez, já que sua aparência não demonstrava idade igual ou superior a sessenta anos, outras simplesmente o chamavam de vagabundo. De certo apenas o fato daquele homem despertar imensa curiosidade e maldosos falatórios.

Certo dia dois curiosos jovens resolveram conhecer melhor seu Zé, fingiram ser pessoas envolvidas com pesquisa e com esse pretexto bateram na misteriosa casa, se apresentaram como funcionários do IBGE e pediram um minuto da atenção do mórbido homem, que educadamente atendeu sem pestanejar. Os jovens foram convidados a entrar e tiveram imensa surpresa ao ver uma casa bem arrumada, norteada por um agradável perfume de flores. Em uma das paredes havia diversas fotos que formavam um mural. Meio confusos por conta da mentira, os dois curiosos falaram que apenas precisavam verificar o estado das construções das casas existentes naquela rua, e seu Zé quase imutável na presença dos estranhos, apenas disse que estava terminando sua cerveja e depois iria descansar um pouco, pediu então que ao terminarem o chamassem com batidas na porta do seu quarto.

Empolgados com a oportunidade, os dois bisbilhoteiros começaram a vasculhar coisas que indicassem fatos da vida do homem, nas fotos na parede uma linda mulher com três saudáveis crianças em situações corriqueiras como almoços, em brincadeiras na cama, se divertindo ou simplesmente sorrindo. Em uma gaveta acharam duas alianças e uma carta de despedida, onde alguém escrevia que estava indo embora, que não agüentava mais aquela vida, que queria encontrar novamente a diversão, que queria a chance de novamente poder viver. Os jovens liam a carta com extrema atenção quando foram surpreendidos por Zé, que de forma mansa explicou, que as fotos eram de sua família, que a carta era de sua ex-esposa, que o abandonou sem deixar notícias, nem dela nem de seus filhos, contou-lhes também que bebia três cervejas por dia, uma por cada filho na tentativa de amenizar uma dor que jamais o deixaria, falou ainda, que pela mulher reservava todo o dia e ficava em casa na esperança de sua volta, para isso largou sua vida de bancário e vive como guarda noturno, escondendo nas obscuras noites toda a sua dor, toda a sua solidão.

Hoje, quando perguntados sobre o homem, os jovens apenas dizem que ali mora o Zé, o cara que se perdeu nos caminhos da vida.

Um comentário:

  1. bom texto, e nós sempre a julgar as pessoas, e estas sempre a nos julgar.

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